
Um dos romances mais curiosos, instigantes e bem-humorados de Philip K. Dick,
Ubik havia sido publicado em português em 1980, pela editora lisboeta Europa-América. A nova tradução da Aleph, a cargo de Lidimila Hashimoto, traz de volta ao leitor brasileiro este importante trabalho de Dick, um dos grandes nomes da ficção científica em todos os tempos, autor que tem sido reavaliado pela
intelligentsia literária norte-americana. A revista
Time incluiu
Ubik na sua lista dos cem maiores romances da língua inglesa, publicados entre 1923 e 2005.
Publicado originalmente em 1969, é um dos romances de Dick que mais lembram os delírios pulp que eram os textos do escritor canadense A. E. van Vogt (1912-2000). Brian W. Aldiss foi um dos primeiros a apontar a influência de van Vogt sobre Dick, e aqui temos a forte sensação de paranóia, as ações confusas e descontínuas, as transições abruptas.
Joe Chip, o herói, faz parte de um grupo de paranormais dirigidos por Glen Runciter. O grupo é especializado em "contramedidas telepáticas" - trabalham para impedir que a mente de alguém - um alto executivo, digamos - possa ser lida por telepatas em busca de segredos comerciais. No grupo está a jovem Pat Conley, garota prodígio que seria capaz de alterar o passado, e parte da sua direção é exercida pela falecida esposa de Runciter, Ella, cuja mente é mantida em um estado de "meia-vida" em um local especializado, chamado "Moratório".
Na ficção científica atual, Ella seria uma "pós-humana", com sua identidade e suas memórias mantidas em um meio digital. A ideia é bastante antiga, e aparece, por exemplo, em O Fim da Infância (Childhood's End; 1953), de Arthur C. Clarke (1917-2008) e outro livro republicado recentemente pela Aleph. Mas também em Regresso à Vida (Recalled to Life; 1958), de Robert Silverberg, em que as personalidades dos líderes de dinastias financeiras co-habitam as mentes dos seus filhos e netos, mantendo-se permanentemente como diretores dos seus conglomerados. Daí se vê que a crítica ao capitalismo dinástico na ficção científica também é anterior a Neuromancer (1985), de William Gibson, no qual também temos, em Dixie Flatline, um personagem existindo apenas no meio eletrônico e após a sua morte física.
Ubik é um dos romances de FC em que mais enxergamos uma crítica satírica ao capitalismo, já que dramatiza a competição permanente e paranóica entre organizações comerciais e financeiras, e na qual o próprio ambiente da meia-vida é palco de vasta competição "existencial" pelo controle da "realidade". Detalhes que costuram o romance, como as constantes mensagens comerciais de um produto chamado Ubik ("ubíquo" ou onipresente), também nos lembram que a paisagem cultural em que vivemos é moldada pelo comércio e pela publicidade. No grotesco futuro imaginado por Dick, mesmo em casa é preciso pagar por serviços, como ir ao banheiro ou à cozinha, inserindo moedas nas fechaduras eletrônicas que falam com você. Algumas das situações em torno disso são absolutamente hilárias - como quando o falido Joe Chip tenta arrombar uma dessas portas e ela ameaça processá-lo -, mas outras compõem um mundo de pesadelo. Mais tarde na aventura de Joe, em torno dele começam a surgir moedas com o rosto do herói - mensagens enigmáticas que, assim como a alteração de objetos e produtos à sua volta, assinalam a degradação contínua do seu senso de realidade.
Os agentes de Runciter são contratados para um trabalho na Lua, mas trata-se de uma emboscada dirigia ao grupo. Uma bomba explode e Runciter é atingido, forçando o grupo a retornar à Terra para colocá-lo em meia-vida. Mas o episódio na Lua nos lembra que Dick não era um escritor de FC hard, pois a certa altura, quando tentam evacuar o corpo de Runciter, os agentes paranormais reclamam do seu peso - na Lua, onde tudo pesa um sexto do que pesa na Terra.
O grande efeito do livro está em puxar de sob os nossos pés aquele tapete que chamamos de "realidade". A alusão a um total solipsismo se funde de maneira muito interessante com a denúncia de que é uma teia reificada de coisas, produtos e serviços comercializados que, no nosso tempo, faz a costura desse tapete.