quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Morte por Luxúria – Peter Tremayne


Não há mistério que resista à mente afiada da irmã Fidelma. No século 7, ela é o Sherlock Holmes de saias. Da ordem de Santa Brígida de Kildare, essa nobre, jovem, bela e inteligente mulher é, na verdade, mais que um detetive. Ela é um dálaigh, uma advogada, conhecedora das antigas leis de Brehon, na Irlanda. Com o grau de estudos que a moça tem, ela pode mesmo discutir até com o rei. Em "Morte por Luxúria" (Panda) ela tem muito trabalho com uma série de crimes na abadia de Streoneshalh.

Tirada da imaginação do escritor inglês Peter Tremayne em 1994, Fidelma é a heroína de uma série de 14 livros - Morte por luxúria é o primeiro deles. O sucesso de suas aventuras foi tal que a freirinha arrebanhou fãs no mundo inteiro. Existe mesmo um clube internacional de leitores de suas histórias, a "Sociedade Irmã Fidelma". Os membros dessa organização recebem jornalzinho trimestral com detalhes sobre as proezas da irmã e fazem, em grupos, viagens à Irlanda, para visitar locais citados nas tramas.

Por baixo de sua túnica de lã crua e touca para segurar certos cachos rebeldes de um cabelo ruivo, ela, digamos, é uma celebridade de seu tempo. Encontramo-la, assim, em meio a um imbróglio histórico: o famoso Sínodo de Whitby, em 664. Na época, líderes religiosos tentavam entrar em um acordo sobre as diferenças fundamentais entre a Igreja Católica Celta e a Igreja Católica Romana. Entre os pontos de discórdia, o celibato e a participação da mulher na Igreja. Se o clima já estava ruim, a coisa ainda poderia ficar pior.

Para jogar mais lenha na fogueira, logo no primeiro dia de debate, uma mão assassina corta a garganta da madre superiora Étain, principal porta-voz da Igreja Celta. Pronto, o bafafá estava feito. Com as suspeitas sobre a Igreja Romana, a batalha ideológica entre os clérigos poderia terminar em guerra civil. Sorte que a irmã Fidelma estava por perto para montar as peças do quebra-cabeça. "O sangue manchará a pedra fria desse piso", profetizou um velho astrólogo. E as estrelas não erraram.

Uma atrás da outra, as mortes na abadia aumentaram a pressão do caldeirão. Por toda a parte, intrigas, golpes, sabotagens. Como o Watson, de Sherlock Holmes, Fidelma precisou de um braço direito na investigação: o jovem irmão Eadulf. Mas, para trazerem das sombras o nome do assassino e dissiparem as nuvens pesadas sobre o Sínodo, Fidelma e Eadulf tiveram que acertar os ponteiros e descobrir que mesmo entre "o lobo e a raposa" - como a dupla ficou conhecida -, pode haver também uma dose de romance no ar.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Hitler – Ian Kershaw


Quando foram publicados, em 1998 e 2000, os dois volumes da monumental biografia de Hitler escrita por Ian Kershaw foram imediatamente saudados em todo o mundo como obras fundamentais sobre a figura mais sinistra da história do século 20. A presente tradução foi realizada a partir da versão condensada elaborada pelo autor, que eliminou cerca de quatrocentas páginas de notas e referências - destinadas sobretudo ao público acadêmico -, sem no entanto prejudicar a força da narrativa e o poder de seu argumento.

Kershaw escreve baseado na farta documentação já conhecida e em novas fontes, como o surpreendente diário de Goebbels, redescoberto no início da década de 1990, que traz revelações mais íntimas sobre as atitudes, as hesitações e o comportamento de Hitler no poder. A trajetória inteira desse indivíduo que parecia destinado ao fracasso e que acabou na direção de um dos países mais desenvolvidos, cultos e complexos da Europa é esmiuçada pelo autor, em busca de uma explicação para essa incrível trajetória ascendente, para o domínio que Hitler exerceu sobre as elites alemãs e para a catástrofe que causou em seu país e no resto do mundo.

Sem desprezar os traços de personalidade do ditador na explicação da história, o autor enfatiza os aspectos sociais, políticos e econômicos da sociedade alemã traumatizada pela derrota na Primeira Guerra, a instabilidade política, a miséria econômica e a crise cultural. E, em vários momentos, Kershaw permite-se fazer exercícios contrafactuais, perguntando-se como tudo poderia ter sido diferente se, por exemplo, a elite conservadora alemã tivesse se comportado de outra maneira, ou se as potências ocidentais não tivessem hesitado tanto, ou mesmo se Hitler simplesmente não tivesse tido tanta sorte (sua sobrevivência a vários atentados, por exemplo, se deveu muitas vezes ao acaso).

De um lado, o autor evita as simplificações de alguns críticos do nazismo, mas por outro contesta, utilizando para isso um exame detalhadíssimo de documentos e eventos, as teorias revisionistas que tentam "absolver" Hitler do Holocausto. Ele mostra que, de fato, não existe uma ordem escrita por Hitler para a execução da "solução final para a questão judaica", mas isso não o isenta da responsabilidade pelo extermínio de milhões de judeus, pois, além de estimular verbalmente essa "aniquilação" (palavra que usava com prodigalidade), ele estava perfeitamente a par do que se passava nos campos de concentração ("Não faço nada que o Führer não saiba", disse o carrasco-mor Himmler).

Em suma, trata-se da biografia mais completa e abrangente do homem que levou o racismo, o desprezo pela vida humana, a insensatez política e o desvario militar a extremos tais que o romancista Norman Mailer chegou a ver nele a pura encarnação do demônio.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Filósofo e o Imperador – Annabel Lyon

Em 'O Filósofo e o Imperador', a vida de Aristóteles, assim como suas fraquezas, anseios e medos são o foco da história. Suas maiores virtudes vêm à tona a partir do momento em que é intimado a educar Alexandre, o grande. Um enorme desafio para ele, que sabe dos interesses envolvidos. Da obrigação de estarem juntos nasce uma relação de pai e filho e é a partir do olhar inteligente e ao mesmo tempo apaixonante de Aristóteles, que o leitor irá presenciar guerras, festas, conspirações, alianças e despedidas. Este livro é um convite a uma viagem no tempo e na intimidade desse filósofo.
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